quarta-feira, 15 de fevereiro de 2017

CARTAS PARA ELA: TEMPOS SANTOS

Para Ela, de G.W.T.

Costumamos ter o hábito pouco sábio de lembrar do passado num devaneio.

Através da memória vemos aquele lugar distante e brilhante, quando possuíamos uma alguma felicidade, como se não houvessem problemas cujo peso nos perturbassem tanto quanto as mazelas dos dias atuais.

Certamente uma mentira doce demais para rejeitarmos.

Mas continuamos contentes e tolos pelos caminhos dourados para onde estas lembranças nos levam.

Porque no mar turbulento que é o presente, o passado se torna um farol para o qual podemos olhar, olhar para trás e encontrar o caminho de volta.

E sentimos conforto mesmo que não possamos voltar lá. Assim como o resto da humanidade estamos condenados a seguir unicamente o caminho adiante.

Destas idílicas lembranças que carrego comigo, aqueles feriados no interior durante o final da infância e o começo da adolescência me trazem uma emoção aconchegante ao coração.

Lembro da chuva, dos banhos no açude. Lembro principalmente das amizades que tive.

Deve ser verdade que existe um momento único no começo da adolescência - um período de transição da inocência da infância para as emoções despertadas pela juventude - que irá ficar impresso na memória para ser guardado com nostalgia através do tempo, carregado como uma pedra preciosa junto de cada amor que conquistamos do florescer ao desvanecer da vida.

Naqueles dias nós andávamos feito unha e carne. Conhecendo uns aos outros e a si mesmos. Os dias eram claros como um sorriso alvo, entrecortados pelas chuvas de março. Aquelas gotas de chuva se transformaram em lágrimas de saudade.

Nossa amizade foi uma novidade, algo único e confuso.

As músicas daquela década hoje expressam mais do que sua época. Trouxeram consigo os retratos de tudo que vivemos. Naqueles feriados.

Abençoados feriados. Com felicidade, romance e drama.

Depois o tempo. Os anos nos afastaram. A adolescência trouxe sua típica carga de confusão e a vida adulta sua carga de responsabilidades.

O tempo trouxe distância.

O açude nem existe mais.

Mas sempre poderemos buscar conforto naqueles dias de semana santa. Através das lembranças e da saudade nos reencontramos e vemos que nada mudou. Estaremos sempre lá. Nós três.

E se eu fechar os olhos ainda posso sentir aquela chuva. Posso sentir o corpo molhado pela água do açude. O frio aconchegante daquele bem estar.

Hoje, com o peito apertado por reviver aqueles dias tão bons, vejo que a saudade é uma cicatriz que marca apenas aqueles que são sensíveis a sentimentos que se tornarão um fardo divino.

Em algum lugar dentro dos nossos corações carregamos aquelas crianças, aquela breve felicidade. E por um breve instante podemos sorrir da mesma forma que elas sorriram.

Feliz aniversário.

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