sábado, 29 de outubro de 2016

CARTAS PARA ELA: AZUL

“Se um escritor se apaixonar por você, você nunca morrerá”.

Para Ela, de G.W.T.

Abro os olhos. Estou numa praia. O sol está a pino e uso as mãos para proteger a vista. Sinto a areia queimando os pés.

Há pessoas em volta. Famílias reunidas, pais, filhos, irmãos, tios e primos… Arengando uns com os outros.

Grupos de amigos se divertem, com música, bebida e juventude.

Há muitos sorrisos. Uma bola cai próxima de mim e eu a chuto de volta para algumas crianças que brincam.

Não reconheço ninguém aqui. Não reconheço esse lugar. Mas eu reconheço o calor que faz, conheço o som do mar, as ondas quebrando, recuando para o fundo e voltando para as areias novamente.

Tomado por um ânimo repentino, respiro profundamente e sinto os pulmões absorverem mais do que oxigênio. Sinto um éter mágico, onírico, sinto a própria essência da vida se espalhar pelo meu corpo inteiro. Eu fico bem.

É quando eu te vejo. Alva no azul. Nadando, flutuando na água como se fosse no céu. Perfeita. Não existem preocupações neste lugar, apenas algo bom transbordando de dentro do coração, se revelando na tua face com sorriso.

É quando percebo que esse lugar é o teu lugar. E que meu desejo inconsciente havia aceitado teu convite consciente. 

Eu quero te cumprimentar, te avisar que eu estou aqui. Mas mais do que tudo quero ficar perto de ti. Estou tão bem que eu PRECISO sentir teu corpo num abraço, preciso dividir essa alegria repentina com a pessoa que a despertou.

Mas eu me detenho e calo, desisto. Não ouso perturbar este belo quadro. Se existe algo em que acredito é que tu deveria ficar bem assim sempre. E eu sonho com isso também.

Tento ocupar minha atenção com a felicidade que permeia esse teu sonho, polvilhada no ar, invisível mas impossível de não reparar. Mas volto a te ver novamente, vejo a poesia dos teus movimentos na água tão azul… Parecia o céu com nuvens de espuma feitas pelas ondas. Sinto um desejo doce e apimentado surgir no coração e tomar meu corpo. A empolgação de quem está apaixonado.

Eu tento me distrair mais uma vez, buscando me impedir de atrapalhar tua valsa no mar. Sento na areia e o tempo avança. O mar escurece um pouco mais, para receber o sol deitando no horizonte. Tu vem em minha direção e teus cabelos se misturam aos tons ruivos do crepúsculo.

Levanto-me, chegou a hora de me despedir. Desta praia, do teu mar, do belo sonho que tu gentilmente compartilhou comigo…

É quando me apanho escrevendo esta carta, sem conseguir encontrar palavras para agradecer este bom sentimento que tu me permitiu.

É quando penso no amanhã. Ei, marcamos de nos ver! Até lá espero encontrar as palavras e os gestos para traduzir esta gratidão, pelo convite tão sincero. Por ter deixado esta janela onírica aberta para mim.

Quem sabe venhamos a descobrir o teu mar numa praia de um final de semana perdido. Quando buscando, pudermos nos encontrar.

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quarta-feira, 26 de outubro de 2016

OS DIÁRIOS DE ÓCULOS: ZEN-MAZELA

A gente acorda mas o sono e a gravidade nos puxam de volta para a cama. Cedemos à preguiça nem tanto pela preguiça, mas pela indisposição para lidar com um dia que não se quer lidar fazendo coisas que não se quer fazer.

MWXS

quarta-feira, 19 de outubro de 2016

CARTAS PARA ELA: AQUELA BREVE ENCRENCA

Para Ela, de G.W.T.

Foi num breve momento,
Mas tua pele morena ainda me atrai
Como naqueles dias.

E sigo assim, em silêncio,
Com a timidez me fazendo engolir as palavras
Ao lembrar daquela louca intenção,
Naquela pequena encrenca,
De nós dois na cama abraçados,
Sentindo o corpo um do outro
E minhas mãos deslizando por tuas pernas.

Mas faz tanto tempo…
Quem sabe a solidão, minha atual companheira,
Tenha feito com que este momento perdido
Viva apenas na minha memória.

A lembrança da chama.

Para todo o resto,
Assim como todo o resto,
Simples cinzas e pó.

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sexta-feira, 14 de outubro de 2016

CARTAS PARA ELA: CICATRIZ QUE FICA

Para Ela, de G.W.T.

Orgulho de você.

É um orgulho silencioso, mudo, uma vez que nossos mundos agora estão distantes. Mas ocasionalmente um beija-flor (eu poderia dizer "o acaso", mas isso tornaria o texto menos poético) me traz notícias e posso ter breves vislumbres das tuas conquistas e especular sobre a mulher que tu deve ter se tornado, com o intelecto aguçado e o coração alegre pertencentes à pessoa quem conheci.

Provavelmente estas palavras estão sendo jogadas ao vento e que elas não possuam mais a importância de outrora aos olhos de quem são endereçadas. Mas tudo bem, eu ainda estarei aqui para lê-las, no final.

Penso, na verdade experimento, que um amor passado pode se tornar um fardo pesado para quem teima em cultivá-lo, mesmo que apenas nos recantos do próprio coração, sem intenções, sem pretensões. Mesmo que as vezes doa. Que doa muito.

Mas eu o guardo. Porque sou eu, porque é isso o que eu faço. Não ouso transformar aquelas palavras em cinzas. São a forma de todos os sentimentos vividos. Não cederei nenhum passo para negar quaisquer verdades deste longo livro.

Guardo este amor porque ele foi belo demais para deixar desvanecer, o guardo porque ainda sou apaixonado por aqueles capítulos desta peça que mudou de rumo e nos reservou papéis diferentes para atuar na história adiante. Carrego comigo, o amor entalhado na pele, e espírito, sem arrependimentos.

Arrependimentos… Sim, me arrependo de algumas coisas que fiz, mas de nenhuma das coisas que tentei. Ainda assim carrego erros e acertos porque tudo aconteceu como tinha que acontecer e de qualquer outra maneira não teria sido o que foi.

Estou diante deste quadro belo e inspirador. Pinceladas de memórias brilhantes e coloridas, com alguns tons tristes. Uma lembrança para guardar e seguir adiante. E descobrir o que os deuses nos reservam para as páginas seguintes.

PS: está tudo bem. Fica bem.

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segunda-feira, 3 de outubro de 2016

CARTAS PARA ELA: CARTA PERDIDA

Para Ela, de G.W.T.

Os três últimos dias foram marcados pela incessante presença da saudade em minha mente. Saudade de você.

Enquanto busco expurgar este sentimento intenso que me toma as faculdades, uso a escrita para tentar resolver este dilema. Gostaria de escrever uma poesia, mas as musas bem sabem que não sou tão bom com rimas. Oxalá eu dominasse versos como você, que escreve tão docemente, com a leveza, alegre e espontaneidade de quem dança uma ciranda.

Me sinto mais confortável com a prosa (palavras soltas francamente em parágrafos) e é ela quem me vale o que me sobra neste momento, mas transcrevo emoções poderosas demais para tal pretensão. Porém sou um sujeito pretensioso, disseram.

Estas semanas não foram fáceis. Noites insones, lembrando, sentindo, ressentindo, projetando e reprojetando. Querendo que você estivesse bem aqui e desejando mais ainda que eu estivesse bem aí.

E não existem surpresas nestas palavras. Sou muito feliz em deixar minhas intenções claras como as águas da nascente de um igarapé: que tanto abranda no calor quanto aquece no frio. Que envolve (como num abraço) enquanto tu permanece e vai um pouco contigo quando tu se despede.

Ainda assim, para qualquer dúvida que venha a persistir, deixo este meu amor declarado às gentes dos quatro cantos, aos deuses dos quatro ventos.

Eu te amo.

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